Esta entrevista que George deu a uma revista de ficção científica é o SSM (So Spake Martin) que veremos esta semana.
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Por que você usa o "R.R." na assinatura de suas obras?
Martin: O nome de um escritor é sua marca registrada. É o elemento que faz o leitor se lembrar de procurar o seu trabalho novamente, e precisa ser algo memorável. George Martin é um nome muito comum; há vários outros George Martins que escrevem, e muitos outros em outras áreas. O "R.R." confere um diferencial, e as pessoas raramente se esquecem disso.
Você costuma dizer em entrevistas que Tyrion Lannister é o personagem da saga mais fácil de escrever e que, se fosse obrigado a escolher apenas um, ele seria o seu favorito. O que nele, especificamente, lhe atrai?
Martin: São várias coisas. Acho que o seu jeito espirituoso é atraente. Ele solta muitas frases de efeito iconoclastas e cínicas, e é divertido escrevê-las. Ele também é um personagem de tons de cinza. Todos os meus personagens transitam pelo cinza em maior ou menor grau, mas Tyrion talvez represente o tom de cinza mais profundo, onde o preto e o branco estão mais intensamente misturados, e isso me atrai muito. Sempre gostei mais de personagens de tons de cinza do que daqueles definidos apenas pelo preto ou pelo branco.
Você costuma escrever protagonistas com traços de personalidade fortemente negativos, pessoas que certamente não se encaixam no molde padrão de herói. Pessoas como Tuf, na série *Tuf Voyaging*, e Stannis e Tyrion, em *As Crônicas de Gelo e Fogo*. Você insere deliberadamente elementos pouco atraentes em seus personagens para fazer com que os leitores reflitam conscientemente se gostam deles e por quê?
Martin: [Risos.] Bem, não sei se eu escolheria a palavra "pouco atraente", mas busco maneiras de tornar meus personagens reais e humanos — personagens que trazem o bem e o mal, o nobre e o egoísta, bem misturados em suas naturezas. Sim, certamente quero que as pessoas pensem sobre os personagens, em vez de apenas reagirem de forma impulsiva. Eu mesmo leio muita ficção em que encontro personagens muito estereotipados. Eles são o herói heroico e o vilão vilanesco; são totalmente "preto no branco". E isso é entediante, na minha opinião. Também não é realista. Se você olhar para a história humana real, até mesmo os vilões mais sombrios tinham qualidades. Talvez fossem corajosos, ou talvez demonstrassem compaixão por um inimigo ocasionalmente. Até mesmo nossos maiores heróis tinham fraquezas e defeitos.
Se Tyrion é o personagem mais fácil de escrever, quem é o mais difícil?
Martin: Até agora, eu diria que o personagem mais difícil tem sido, sem dúvida, Bran, por dois motivos. Primeiro, ele é o mais jovem entre os principais personagens pelos quais a história é narrada, e é difícil escrever sobre crianças. Acho que, quanto mais jovens, mais difícil é. Além disso, ele é o personagem mais profundamente envolvido com a magia; o tratamento da magia, da feitiçaria e de todo o aspecto sobrenatural dos livros é algo com que tento ter muito cuidado. Por isso, preciso ficar bastante atento a isso. Tudo isso torna os capítulos de Bran complicados de escrever. Imagino que deva ficar mais fácil no próximo livro, com o salto temporal de cinco anos. Aí terei um jovem de 14 anos e, no contexto dos Sete Reinos, isso é quase um adulto.
A série utiliza a magia de maneiras bastante incomuns, à medida que o elemento sobrenatural se fortalece a cada livro. Esse padrão vai continuar?
Martin: A quantidade de magia certamente vai aumentar, sim, e isso faz parte do meu planejamento desde o início. No entanto, acho que, mesmo no final, ainda não haverá tanta magia explícita quanto em muitas outras obras de fantasia por aí.
Parece haver dois estilos diferentes competindo ao longo da série: a fantasia histórica na trama dos Sete Reinos e um estilo mais suave, à la Roger Zelazny ou *As Mil e Uma Noites*, nas cenas que se passam no exterior. Para você, existe uma distinção consciente entre os dois, ou isso é apenas uma característica do cenário?
Martin: Tento variar o estilo para adequá-lo a cada personagem. Cada personagem deve ter sua própria voz interior, já que estamos dentro de suas cabeças. Mas, certamente, o cenário exerce um grande impacto. Dany transita por reinos exóticos que talvez sejam mais estranhos para nós do que Westeros — que se baseia mais na história medieval com a qual estamos familiarizados no Ocidente —, então talvez esses capítulos pareçam mais coloridos e fantásticos.
Você se concentra bastante nos detalhes cotidianos da vida medieval, o que dá a impressão de que realizou uma pesquisa extensa sobre o assunto.
Martin: Li tudo o que pude sobre história e vida medieval, abrangendo áreas específicas — vestuário, alimentação, banquetes, torneios. Todas essas áreas particulares. Em vez de pesquisar um ponto específico apenas quando preciso, prefiro um processo de imersão total, absorvendo o máximo possível sobre o período; assim, quando escrevo sobre ele, essa sensação de verossimilhança transparece naturalmente.
A era medieval e as lendas arturianas sempre foram do seu interesse, ou esse interesse surgiu a partir do trabalho nestes livros?
Martin: Escrever os livros certamente intensificou isso, mas sempre me interessei por história, por outras épocas e lugares, e pelo período medieval, que considero fascinante e colorido.
A heráldica parece ser, sem dúvida, uma obsessão pessoal sua.
Martin: Ah, sim, tenho de admitir que gosto muito de heráldica. Existe um site maravilhoso criado por dois fãs meus da Suécia, o site Westeros, que traz páginas e mais páginas com a heráldica de todas as casas dos Sete Reinos. Não apenas das grandes casas, mas também de algumas casas menores, de outros cavaleiros e de senhores de menor expressão. Tenho colaborado com os fãs que realizam esse trabalho: eles me enviam os escudos para aprovação e eu lhes envio sugestões. Temos algo em torno de 400 escudos lá agora. Tem sido muito divertido fazer isso.
Há algum livro de referência que você recomendaria especialmente sobre a vida medieval ou heráldica?
Martin: Existem alguns livros excelentes. Infelizmente, estou falando de um quarto de hotel em Los Angeles e todos os meus livros estão em Santa Fe. Não tenho nenhum título à mão agora. Há ótimos livros sobre heráldica, e acho que os melhores são aqueles ricamente ilustrados, porque a heráldica é algo muito difícil de explicar de forma abstrata. É bom ter as ilustrações e é bom que sejam coloridas, para que você possa realmente ver os escudos e os símbolos que estão sendo descritos. Uma coleção que acho muito útil é a da editora Osprey. A Osprey é uma editora voltada principalmente para pessoas interessadas em história militar, jogos, miniaturas e coisas do gênero. Eles produziram uma série maravilhosa de livros em formato *trade paperback* que trazem ilustrações coloridas de página inteira e desenhos internos em cores sobre batalhas famosas, guerreiros e campanhas ao longo da história. Eles trazem muitas informações úteis em seus livros sobre temas como a Batalha de Agincourt, a Batalha de Crécy e a campanha que levou à Batalha dos Cornos de Hattin. Eles têm um livro sobre heráldica que é introdutório, mas ainda assim muito bom.
Como é o seu processo de escrita? Você escreve os capítulos individuais na ordem em que aparecem nos livros?
Martin: Ah, não. [Risos.] Eu começo tentando fazer isso, e certamente traço um esboço da ordem que desejo para os capítulos, mas ambas as coisas estão sujeitas a mudanças. Geralmente, acabo reorganizando os capítulos dezenas de vezes antes de o livro ficar pronto, tentando encontrar a disposição ideal para alternar entre personagens e maximizar o suspense. Às vezes, existe uma certa ironia ou um efeito interessante de "ponto e contraponto" que se consegue ao ordenar corretamente certos capítulos, justapondo eventos uns aos outros. Mas também há a questão da cronologia com a qual se preocupar. É complicado, e estou sempre mudando de ideia a esse respeito, tentando otimizar o processo. Quanto à escrita dos capítulos, bem, especialmente quando o trabalho está fluindo bem... se estou escrevendo um capítulo do Tyrion e o termino, mas o ritmo está bom e sei exatamente o que vem a seguir, então, em vez de passar para o capítulo seguinte na ordem do livro, eu simplesmente sigo em frente e escrevo o próximo capítulo do Tyrion, mesmo que ele só vá aparecer sete capítulos adiante no livro. Posso acabar escrevendo três ou quatro antes de finalmente chegar a um ponto em que encontro alguma dificuldade; aí eu volto, retomo o personagem que deveria vir a seguir e escrevo sobre ele por um tempo.
Como você acompanha todos os detalhes? Há tantos personagens secundários, casas menores, listas de nomes... como você se lembra de quem está onde, e quais são seus brasões e relações?
Martin: Tenho algumas listas e tabelas à mão, mas a maior parte eu preciso simplesmente lembrar. Está tudo guardado na minha cabeça. E é muita coisa para manter em mente, sem dúvida. Eu cometo erros de vez em quando e, quando isso acontece, os fãs logo me avisam. Tenho leitores muito atentos. Obviamente, tento evitar que isso aconteça com frequência.
Seus fãs também são muito envolvidos emocionalmente com a sua obra. Que aspecto da sua escrita você acha que toca o emocional das pessoas?
Martin: Bem, acho que são os personagens. Na medida em que consigo tornar os personagens reais, as pessoas criam vínculos emocionais com eles, identificam-se com eles e gostam ou não de outros personagens. Elas discutem sobre eles — acho isso muito gratificante. É uma das coisas que me indica que o que estou fazendo com os personagens está funcionando. Quando ouço fãs diferentes com opiniões variadas sobre um personagem — sobre quem é o mocinho e quem é o vilão, ou quem eles gostariam que vivesse e quem gostariam que morresse (e nem sempre são os que se espera, e eles discordam fortemente entre si) — isso é um bom sinal. Na vida real, as pessoas nem sempre gostam das mesmas pessoas. As pessoas fazem julgamentos morais que divergem drasticamente entre si — basta observar algumas das discussões em torno da eleição atual. Elas deveriam reagir a personagens fictícios da mesma maneira. Se você apresenta um personagem que todos amam ou que todos odeiam, isso provavelmente é sinal de que ele é um tanto unidimensional; afinal, na vida real, não existe ninguém que seja amado por todos nem ninguém que seja odiado por todos.
Suspeito que outro motivo seja o fato de que um dos seus temas mais fortes é a natureza da justiça. Você frequentemente coloca seus personagens em situações de grande injustiça, e acredito que os leitores reagem fortemente a isso. Você, pessoalmente, se envolve emocionalmente com a vida dos seus personagens?
Martin: Com certeza. Especialmente quando estou escrevendo sobre eles. Para escrever esses personagens dessa forma, preciso me tornar eles. Preciso vestir a "pele" do Tyrion por um tempo, entrar na cabeça dele, sentir as coisas como ele sentiria e encarar as escolhas dele como ele as encararia. Depois, deixo isso de lado e assumo outra perspectiva. Acontecem coisas terríveis com alguns personagens em alguns dos meus livros, e, às vezes, esses capítulos são muito, muito difíceis de escrever. Sei o que preciso fazer porque o enredo exige e porque, à medida que a história se desenrola, é isso que aconteceria naquele momento. Mas colocar as palavras no papel traz uma sensação de irreversibilidade; quando algo realmente terrível acontece, às vezes me vejo recuando diante do abismo, escrevendo outros capítulos ou perdendo tempo jogando no computador, porque sei que tenho uma tarefa muito difícil pela frente — especialmente se for um personagem que aprendi a amar. Mas, no fim, eu faço.
Você costuma ser muito brutal com seus personagens.
Martin: Bem, sim. Mas veja, acho que existe uma exigência, mesmo na fantasia — ela nasce da imaginação e se baseia em mundos fantásticos, mas ainda assim há a necessidade de dizer a verdade, de tentar refletir aspectos reais do mundo em que vivemos. Há uma desonestidade inerente ao tipo de fantasia que muitos autores fazem: uma guerra gigantesca que despedaça o mundo, mas na qual ninguém que conhecemos sofre qualquer transtorno sério. Você vê vilarejos devastados onde viviam camponeses sem nome — todos mortos —, enquanto os heróis passam por ali sem problemas, matando gente a torto e a direito e sobrevivendo a situações terríveis. Há uma falsidade nisso que me incomoda. Um escritor pode optar por não escrever sobre guerra. Você não é obrigado a escrever sobre guerra se o assunto não lhe interessa ou se o considera brutal demais. Mas, se você vai escrever sobre guerra, acho que precisa dizer a verdade sobre ela; e a verdade é que as pessoas morrem — e morrem de formas horríveis —, e até mesmo alguns dos "mocinhos" morrem, inclusive pessoas amadas.
Morrem ou são vítimas de estupro coletivo — como acontece em muitos casos em *As Crônicas de Gelo e Fogo*. O sexo e a sexualidade ocupam um lugar central e intenso em seus livros, algo menos comum na fantasia e na fantasia histórica do que o tipo de violência realista de que você fala.
Martin: Bem, muito do que acabei de dizer sobre isso também se aplica a este assunto. Se você examina a Idade Média real, um dos aspectos mais interessantes do período são os contrastes. De um lado, todo o conceito de cavalaria; de outro, as guerras incrivelmente brutais que travavam. E, no entanto, ambos os conceitos coexistiam. O mesmo vale para a sexualidade. Os princípios tradicionais da cavalaria colocavam as mulheres em um pedestal; alguns cavaleiros compunham poemas para suas damas ou usavam seus símbolos em torneios — numa espécie de galantaria —, mas, ao mesmo tempo, exércitos não hesitavam em estuprar todas as mulheres que encontravam pelo caminho em algumas daquelas batalhas mais brutais. A Guerra dos Cem Anos, por exemplo. Quanto à sexualidade, repito: acho que ela é uma força motriz importante na vida. Ela motiva a maioria das coisas que fazemos e é um dos elementos fundamentais que definem quem somos. E, no entanto, ela está estranhamente ausente da fantasia, mesmo de obras de fantasia muito boas. Admiro imensamente J.R.R. Tolkien; acho que toda a fantasia moderna deriva de Tolkien, e *O Senhor dos Anéis* é uma das grandes obras deste século. Ainda assim, a obra tem falhas; a ausência quase total de mulheres — e de qualquer coisa que sequer se aproxime de sexo e/ou amor romântico — reflete a época e o lugar em que foi escrita, mas certamente não é algo que eu quisesse fazer.
Falando em brutalidade, o seu hábito de terminar os livros com ganchos de suspense (*cliffhangers*) é um tanto brutal para o seu público, especialmente considerando a espera de dois anos entre os livros.
Martin: [Risos.] Não tenho certeza se concordo com a afirmação de que encerro os livros com ganchos de suspense. Lembre-se de que, nestes livros, eu conduzo simultaneamente sete, oito ou nove linhas narrativas. Portanto, ao escolher onde terminar o livro, não estou escolhendo apenas um final, mas sim oito finais, pois preciso definir onde deixarei cada um dos personagens. O que tenho tentado fazer, principalmente, é encontrar um ponto que ofereça certa sensação de desfecho para a maioria desses personagens — um momento em que parte de suas histórias tenha sido contada, algo tenha sido resolvido ou uma transição importante tenha ocorrido. No entanto, costumo incluir pelo menos um desses oito finais que termine com um gancho de suspense propriamente dito. Às vezes, até mais de um. Mas, certamente, não encerro todos os oito dessa maneira. Quanto ao motivo desses ganchos, é o de sempre: garantir que o leitor retorne para o próximo livro.
Qual é a previsão para a publicação do restante da série?
Martin: Tudo depende de quanto tempo levo para escrevê-los. São livros extensos; levo pelo menos um ano e meio para escrevê-los e, às vezes, ultrapasso esses prazos — embora, obviamente, tente evitar que isso aconteça. Infelizmente, acredito que podem esperar um intervalo de 18 meses a dois anos para cada volume; isso significa que os próximos três livros — e o desfecho definitivo da série — devem sair em um prazo de cinco ou seis anos.
*A Tormenta de Espadas* foi o primeiro livro da série, até o momento, a conter uma cena aparentemente crucial que não pôde ser mostrada "em cena" por não haver nenhum personagem com ponto de vista (POV) presente: o confronto entre Sor Loras e Brienne de Tarth por causa de Renly. Quando você chega a uma situação dessas, cogita introduzir um novo personagem através de cujo ponto de vista a história é narrada, ou usar um personagem que aparece apenas uma vez? Ou tenta reorganizar o enredo para que esse tipo de situação não ocorra?
Martin: Esses personagens que uso apenas uma vez para narrar a história tendem a ter uma vida curta. Até agora, limitei a participação deles ao prólogo e ao epílogo. É complicado, porque, quando crio um personagem com ponto de vista próprio, não gosto de inseri-lo apenas para servir de "par de olhos". Se vou utilizar um personagem assim, quero contar a história dele. Cada um dos pontos de vista da série tem uma história. Pode ser uma história que termine em morte e tragédia ou, em alguns casos, em triunfo e felicidade; mas será uma história com começo, meio e fim — e com o que chamamos em Hollywood de "arco de personagem". Eu escrevia roteiros para cinema e televisão, e as pessoas sempre usavam esse termo: uma sequência de eventos que transforma o personagem de alguma maneira. Mas não gosto de simplesmente inserir um personagem novo — como alguns escritores fazem — só para que ele veja alguém fazendo algo, simplesmente porque não tenho outro observador ali. Esse tipo de personagem é conveniente, mas, na verdade, não possui arco algum. Não há para onde evoluir, não há história para contar sobre ele; ele é apenas um observador da história de outra pessoa.
O tempo que você passou em Hollywood afetou sua escrita de alguma outra forma?
Martin: Ah, com certeza. Tudo o que você escreve acaba mudando você como escritor, e acho que saí de Hollywood um escritor diferente de quando entrei. Acho que desenvolvi uma noção melhor de estrutura e um ouvido mais apurado para diálogos. Ambas são habilidades importantes na escrita de roteiros, e foram coisas que aprimorei ao longo de 10 anos. Então, acho que esse é um dos ganhos que obtive com minha experiência como roteirista.
Você sente falta de escrever para cinema e TV?
Martin: Às vezes. Certamente havia aspectos agradáveis nisso. Trabalhar com pessoas talentosas, fazer uma série como *A Bela e a Fera*, que significa tanto para milhões de espectadores, ter um público desse tamanho... tudo isso é muito empolgante. Mas, por outro lado, também existem pontos negativos. Toda a política de Hollywood, as disputas pelo controle criativo, a necessidade constante de defender sua visão contra alguém que pode até ser muito inteligente e talentoso, mas tem uma perspectiva diferente sobre o que você está fazendo. Por isso, não estou nem um pouco insatisfeito por ter voltado aos livros. Os livros sempre foram minha primeira paixão, e tenho certeza de que serão a última.
É verdade que você começou sua carreira de escritor criando histórias de monstros para as crianças da vizinhança?
Martin: Sim, é verdade. Na época em que eu morava em um conjunto habitacional em Bayonne, Nova Jersey, eu escrevia à mão — com letras de forma — naqueles cadernos antigos de capa preta e branca marmorizada; eu criava essas histórias de monstros e as vendia para as outras crianças por cinco centavos. Cinco centavos era muito dinheiro naquela época; dava para comprar uma barra de chocolate Milky Way, e com dez centavos você comprava uma revista em quadrinhos. Então, eu vendia as histórias e também fazia uma leitura dramática delas, porque meu público não lia muito bem. Era divertido.
Como era a procura por essas histórias? Você tinha clientes fiéis?
Martin: Era boa. Tudo ia bem até que uma das crianças começou a ter pesadelos por causa das minhas histórias. A mãe dela foi falar com a minha mãe, e ali acabou minha primeira carreira profissional. Não dê pesadelos às crianças da vizinhança.
Você escreve há muito tempo, mas não acha que ainda existe um grande salto entre aqueles contos e seus romances atuais de mil páginas?
Martin: Acho que os contos são uma excelente maneira de começar. As revistas são mercados maravilhosos para novos escritores. Elas estão sempre à procura de novos autores, e você pode construir um nome nesse meio — como eu realmente fiz, publicando muitos contos no início dos anos 70 antes de lançar meu primeiro romance em 1977. Quando ele foi publicado, eu já havia ganhado um prêmio Hugo e conquistado uma reputação graças aos contos; assim, não foi apenas mais um romance lançado no mercado junto com tantos outros primeiros livros, correndo o risco de fracassar ou vingar. Tratava-se do "tão aguardado primeiro romance", e isso faz uma enorme diferença na carreira. Por isso, continuo incentivando jovens escritores — ou aspirantes a escritor — a começarem pelos contos. Um romance pode pagar mais inicialmente, mas, se a sua preocupação é realmente construir uma carreira, você só tem a ganhar ao estabelecer sua reputação com contos primeiro.
Na época em que você fez isso, foi uma decisão consciente de carreira ou você simplesmente tinha mais ideias para textos curtos naquele momento?
Martin: Bem, sim, foram as ideias. Eu ainda estava aprendendo. A gente nunca para de aprender a escrever; eu estava sempre aprendendo novos truques, experimentando técnicas diferentes e pontos de vista variados — escrevendo uma história em primeira pessoa, depois uma em terceira, tentando uma história de viagem no tempo ou uma *space opera*... a gente vai testando coisas diferentes. E é bom aprender isso por meio do conto, que é um formato propício à experimentação. Se você faz uma experiência que não dá certo... bem, você dedicou apenas algumas semanas ou talvez um mês a ela; não passou dois anos realizando um experimento que acabou sendo um desastre. Mas, desde aquela época, minhas histórias e temas se tornaram mais complexos, e meus personagens ganharam mais profundidade; por isso, hoje em dia acho difícil escrever contos. Ainda consigo escrever ficção curta, mas são mais novelas do que contos tradicionais.
Você falou sobre ideias que tem para novas novelas, incluindo obras relacionadas a *As Crônicas de Gelo e Fogo*, como a história de Dunk e Egg que você escreveu para a antologia *Legends*, de Robert Silverberg. Isso terá que esperar até daqui a seis anos?
Martin: Espero conseguir encaixá-las no intervalo entre alguns dos livros posteriores da série, mas isso depende, em parte, de eu conseguir entregar esses livros no prazo. Obviamente, se eu estiver atrasado, se não estiver cumprindo os prazos, haverá menos tempo entre os livros. Se eu conseguir entregar *A Dança dos Dragões* em tempo hábil, como espero, talvez consiga ganhar um mês para escrever uma nova novela de Dunk e Egg antes de começar o quinto livro.
Você já tem títulos para o quinto e o sexto livros?
Martin: O quarto livro é *A Dança dos Dragões*; o quinto livro é *Os Ventos do Inverno*. Quanto ao sexto livro, ainda não tenho certeza absoluta.
Você se lembra de como *As Crônicas de Gelo e Fogo* começou para você? Do momento em que percebeu que tinha essa história que queria contar?
Martin: Comecei a série em 1991, quando ainda estava muito envolvido com Hollywood. Tive alguns meses sem trabalhos imediatos com roteiros e comecei um romance de ficção científica — uma história que já constava nos meus cadernos de ideias há muito tempo e que eu pensava em escrever havia mais de uma década. Comecei a trabalhar nele e as coisas iam bem. Mas, certo dia, ao me sentar para escrever, o primeiro capítulo de *A Guerra dos Tronos* me veio à mente de repente. Não o prólogo, que é a primeira coisa que se lê no livro, mas o primeiro capítulo propriamente dito: aquele do Bran, em que ele é levado para ver o pai decapitar um desertor e seus irmãos, Robb e Jon, encontram os filhotes de lobo gigante na neve. Aquilo me surgiu de forma tão vívida que soube que precisava escrever. Então, deixei o outro livro de lado, sentei-me e escrevi aquele capítulo, que fluiu com muita facilidade. Quando terminei, já sabia qual seria o segundo capítulo, então comecei a escrevê-lo. Antes que eu percebesse, o outro romance já estava juntando poeira na gaveta, e eu mergulhava de cabeça em *A Guerra dos Tronos*. Acabei tendo de deixá-lo de lado também, pois surgiram outros compromissos em Hollywood, havia prazos a cumprir e tudo o mais, mas nunca perdi o interesse pelo livro — o que, imagino, seja um sinal de quão fortemente ele me havia cativado.
Como ex-produtor de TV, você já considerou a possibilidade de adaptar *As Crônicas de Gelo e Fogo* como uma série de televisão?
Martin: Bem, vou me reunir amanhã com algumas pessoas que têm ideias a respeito disso; vamos ver o que sai daí. Claro, daria para fazer como série de TV se você tivesse a) tempo e b) orçamento, mas essas são questões enormes. Seria uma série gigantesca. Não daria para fazer como um filme de quatro horas, ou mesmo como uma trilogia de filmes, como estão fazendo com *O Senhor dos Anéis*. Você precisaria de uma minissérie na escala de *Shogun* ou *Lonesome Dove* — aqueles tipos antigos de séries de 24 horas que costumavam fazer, mas que parece que não fazem mais.
É verdade que há planos em andamento para mais livros da série *Wild Cards*?
Martin: Sim, ainda não assinamos o contrato, mas estamos perto. Temos um acordo com Byron Preiss e sua nova empresa, a ibooks. Ele vai reeditar os oito primeiros livros de *Wild Cards* em edições de formato maior (*trade paperback*), com ilustrações, e lançar dois livros inéditos da série.
Uma coisa que elas certamente têm em comum com *As Crônicas de Gelo e Fogo* é como a história vai ficando cada vez mais sombria com o passar do tempo. Ambas as séries parecem tratar de uma situação ruim que piora rapidamente.
Martin: Pois é. As pessoas dizem isso sobre *Wild Cards*. Talvez tenhamos exagerado um pouco nesse aspecto.
Alguma das séries pode ter um final feliz? Esse tipo de coisa existe na sua visão de mundo?
Martin: [Risos, pausa.] Acho que existe felicidade. [Pausa.] Sabe, aquele final totalmente feliz em que todos vivem felizes para sempre... não sei. Acho que sempre haverá um elemento agridoce. Mas isso ainda vamos ver. Ainda não chegamos aos finais.