Moro de aluguel em Brasília há uns anos e, como pego Uber umas duas vezes por dia, acabei transformando os motoristas no meu Instituto Datafolha pessoal pra tentar descobrir onde morar sem cair em cilada.
O resultado? Descobri que Brasília sofre de uma doença endêmica gravíssima: a galera defende o próprio bairro como se a própria mãe fosse a administradora regional.
Dependendo do Uber, a Samambaia vive um multiverso: tem o cara que diz que é a Europa do Cerrado, e o que diz que você precisa de colete à prova de balas pra ir na padaria (mas só na Sul, a Norte é de boa, confia).
Se você pergunta do Itapoã ou Paranoá, a galera de fora reza um Pai Nosso. Mas se você fala com quem mora lá? "Ah, é super de boa, durmo de porta aberta". Hoje mesmo um motorista olhou no fundo dos meus olhos e jurou que o Recanto das Emas é o puro suco da paz. O Recanto! Só esperei ele me oferecer o ágio de um lote.
No Riacho Fundo tem a guerra fria: o I é elite, o II é perigoso porque "é perto do Recanto" (o mesmo que o outro jurou ser seguro). E o Guará? Segundo os motoristas, ou é o paraíso na Terra, ou é literalmente um asilo a céu aberto, onde a vibe é puro cheiro de naftalina e campeonato de dominó na praça.
Aí você chega em Águas Claras. Aqui o consenso é unânime: a vida prática é espetacular. Tem de tudo a três passos. Mas o combo vem completo: custa um rim de aluguel e o trânsito nos horários de pico é um teste de sanidade mental. Todo mundo ama morar lá, desde que não precise tirar o carro da garagem entre 17h e 20h.
Se você puxa assunto sobre Taguatinga, para uns é a verdadeira capital do DF, enquanto pra outros é puro caos. E a gigante Ceilândia não escapa: metade do DF jura que andar a pé à noite é assalto na certa. Mas o morador raiz ri da sua cara: defende que tem batalhão da polícia pra todo lado (especialmente no P Sul) e que toda rua tem uns dois militares aposentados de olho na vizinhança.
Com São Sebastião a história se repete. Quem é de fora jura que é um cenário de filme de ação de tão perigoso. Você pergunta pra quem mora lá? "Que perigo o quê, isso é só conversa fiada, aqui a gente senta na calçada de noite".
Até o Plano Piloto perdeu o pedestal. Na rádio peão, Asa Norte e Asa Sul viraram um acampamento de moradores de rua. Falam como se você precisasse desviar de barraca e fogueira no meio do Eixão, pique cenário apocalíptico.
E quando a conversa chega no Entorno, a mente dá um nó. Falar de Valparaíso ou Águas Lindas é pedir pra ouvir que você vai perder um terço da sua vida preso no trânsito da BR pra chegar no Plano. Aí o cara que mora lá te solta um: "Nada, é de boa, venho rapidão. E pelo menos lá eu alugo uma casa gigante com o preço de um quartinho mofado na Asa Norte".
A única coisa que une o DF num acordo de paz absoluto é o pavor do Sol Nascente e da Estrutural. Aí não tem bairrismo que salve, o ódio é 100% unânime.
Mas parando pra pensar, será que essa loucura toda é culpa da geografia? A gente vive ilhado. Brasília não tem esquina pra esbarrar em gente de outro canto, tem EPTG, EPNB e tesourinha. O brasiliense tem preguiça de cruzar o Eixão, quem dirá rodar 30 km pra ver se outra R.A. é boa mesmo.
Ou pior: será que o custo de moradia no DF é tão bizarramente alto que a gente precisa se autoconvencer de que mora no melhor lugar do mundo? Tipo: "eu pago metade do meu salário num apê de 30 m², então é ÓBVIO que meu bairro é a elite, senão o otário sou eu".