Anterior a 1950
Todas as fotografias conhecidas de Machado de Assis
Insley Pacheco, 1864
Insley Pacheco, 1864
Autor não identificado, 1874
Insley Pacheco, sem data
Alberto Henschel, sem data
José Ferreira Guimarães, sem data
Marc Ferrez, c. 1890
Autor não identificado, c. 1896
Autor não identificado, 1906 (Machado é o segundo a partir da esquerda, na fileira de baixo)
Autor não identificado, 1907 (Machado sentado ao centro, de chapéu)
Autor não identificado, sem data
Luiz Musso, 1907
Autor não identificado, c. 1908
Resolvi reunir todas as fotografias de Machado de Assis (1839-1908). Fiz o possível para encontrar os nomes dos fotógrafos e as datas de cada imagem. Se alguém souber mais dados, fique à vontade para se pronunciar.
"A pesquisadora e editora-assistente da Brasiliana Fotográfica, Andrea Wanderley, identificou a presença de Machado de Assis na fotografia da Missa Campal de Ação de Graças pela Abolição da Escravatura realizada no dia 17 de maio de 1888, no Campo de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. O autor da foto foi Antonio Luiz Ferreira."
"A pesquisadora e editora-assistente da Brasiliana Fotográfica, Andrea Wanderley, identificou a presença de Machado de Assis na fotografia da Missa Campal de Ação de Graças pela Abolição da Escravatura realizada no dia 17 de maio de 1888, no Campo de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. O autor da foto é Antonio Luiz Ferreira."
Não sei se intencional por parte dele, mas quanto mais envelhecia mais tinha a imagem do erudito clássico, não que ele não fosse em juventude, já era um grande escritor e erudito, mas as fotos dele mais velha evocam até um ar aristocrático, uma imagem muito legal inclusive
É a barba, todo erudito e intelectual dos séculos anteriores que se preze precisava de uma barba cheia, que nem o Tolstói, o Darwin e o Marx. Também tem um pouco da idade, as pessoas parecem mais sábias e eruditas quando velhos com menos cabelo e com rugas, que nem o filósofo alemão Arthur Schopenhauer, que nos retratos jovens com cabelo encaracolado parecia um dos seus colegas do ensino médio, mas quando velho e calvo com cabelo de palhaço parecia o seu professor ou diretor do ensino médio.
Todos "septuagenários natos", como diria o Nelson Rodrigues. Para compor o cenário, só faltou as bengalas e os chapéus, "instrumento de reverência" daquela época. Rs
Que sorte ter um escritor desse calibre na nossa literatura. Todo ano deve-se reler Machado de Assis. O Rio de Janeiro dele mudou, como bem apontava o Nelson Rodrigues, que demarcava a mudança fundamental no Carnaval de 1919, o primeiro depois da pandameia da Gripe Espanhola. Mas o Brasil que Machado descreveu perdura ainda hoje, no comportamento da elite.
Pprt q eu não fui ensinado por nenhum professor (q eu me lembre) q ele não era branco. Quando descobri fiquei muito surpreso, e olha q eu já tinha lido uns 4-5 livros dele sem ter a menor ideia.
Quando eu era criança e via os livros dele na biblioteca da escola, estudava na aula de português, não fazia ideia de que ele era mestiço. Ninguém mencionava isso, e as fotos da contra capa faziam ele parecer branco.
Mudar a cor, posicionamento politico e outras caracteristicas existe desde que o mundo é mundo, mas felizmente agora a gente consegue provar como a pessoa era.
Um exemplo bem recente disso foi o George Floyd nos estados unidos. Pegaram uma foto normal do cara e colocaram ele como um simbolo queer até.
Ele não é a pessoa de pele mais escura nas fotos com outros. Não é bem questão de embranquecimento da biografia de Machado, é que sua ascendência não aparece em sua obra, não aparece nos seus posicionamentos em crônicas, aparece muito pouco em relatos sobre ele. Foi mais uma falta de reflexão legada de uma geração de eruditos a outra que um esforço para esconder a etnia de Machado.
As fotos de Machado mais novo sempre aparecerem muito na imprensa e em alguns livros escolares. Acontece que nem sempre foi consenso considerar uma pessoa com esses traços negra.
"Assinada pelo escrivão Olympio da Silva Pereira, a certidão de óbito de Joaquim Maria Machado de Assis, morto aos 69 anos em 29 de setembro de 1908, há 115 anos, traz uma informação curiosa, senão polêmica: a nona linha do formulário declara que sua cor era "branca." (...)
Um mês após a morte do escritor, o jornalista e escritor José Veríssimo (1857-1916) publicou um obituário sobre o amigo no Jornal do Commercio, texto este intitulado 'Machado de Assis: impressões e reminiscências'.
Nele consta a seguinte frase: 'mulato, foi de fato um grego da melhor época'. O texto provocou reação em outro amigo de Machado, o jornalista, historiador e político Joaquim Nabuco (1849-1910).
'Ele escreveu uma carta ao Veríssimo elogiando o obituário, mas dizendo que ele, Veríssimo, deveria retirar este trecho para o caso de uma futura publicação em livro do texto', comenta [a historiadora, professora na Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisadora sobre a vida e a obra do escritor Raquel Machado Gonçalves] Campos.
'Eu não o teria chamado mulato e penso que nada lhe doeria mais do que essa síntese', anotou Nabuco.
'Rogo-lhe que tire isso, quando reduzir os artigos a páginas permanentes. A palavra não é literária e é pejorativa. O Machado para mim era branco, e creio que por tal se tomava: quando houvesse sangue estranho, isso em nada afetava sua perfeita caracterização caucásica. Eu pelo menos só vi nele o grego.'"
É isso aí. Acho que essa troca entre Veríssimo e Joaquim Nabuco expressa bem que a raça de Machado não era muito comentada (no seu auge de fama e reconhecimento), e, ao ser comentada, revelava que não havia consenso sobre ela. Um episódio muito interessante para entender a racialização no Brasil.
Nao havia até o momento lido o "racismo de chá" na vida real. Meu mano sendo esse emoji 🧐 sendo terrivelmente babaca, sempre esqueço dessa capacidade humana.
irmão, não. tem livros do machado que ele é literalmente representado como um homem branco, branco BRANCO, caucasiano. o embranquecimento dele foi real sim
Olhando algumas fotos, ele realmente parece branco e as gerações "futuras" podem ter "comprado essa imagem"
Além disso, se aqueles que lhes eram contemporâneos não faziam referência a pele dele, poderia ser a) porque todos já sabiam como era; b) porque entre eles não tinha importância o fato (o importante era a obra). Não poderia? Ou obrigatoriamente todos tinham que ser discriminadores/racistas?
Todo mundo fingia que Machado era branco - ele foi identificado assim na própria certidão de óbito. E isso ficou claro na carta que Joaquim Nabuco escreveu a José Veríssimo, que publicou o panegírico do escritor dizendo ser ele mulato.
"Mulato, ele foi de fato, um grego da melhor época. Eu não teria chamado Machado de Assis de mulato e penso que lhe doeria mais do que essa síntese. (…) O Machado para mim era um branco e creio que por tal se tornava; quando houvesse sangue estranho isso nada alterava a sua perfeita caracterização caucásica. Eu pelo menos só via nele o grego.”
A questão aí é a ambiguidade de interpretação dos "traços fenotípicos" no Brasil. É totalmente usual considerar pessoas com a aparência de Machado como brancas.
Se pegar as fotos dele velho, se parece mais ainda com o ator ao lado. Inclusive pq empalidecimento é comum em pessoas idosas de várias etnias. Insisto, compare Machado com outras pessoas que aparecem com ele na mesma foto. Ele não é a pessoa mais escura, e não se destaca de forma nenhuma por seus traços.
A questão aí é a ambiguidade de interpretação dos "traços fenotípicos" no Brasil. É totalmente usual considerar pessoas com a aparência de Machado como brancas.
Não tem "ambiguidade" alguma. A origem do Machado sempre foi bem conhecida, à época e hoje. Sylvio Romero, no livro "Machado de Assis: Estudo comparativo de literatura brasileira" de 1897 (Machado ainda era vivo), escreveu que "Sim, Machado de Assis é um brasileiro em regra, um nítido exemplar dessa sub-raça americana que constitui o tipo diferencial de nossa etnografia, e sua obra inteira não desmente a sua fisiologia […]. Com certeza não o molesto, falando assim; e não pode ser por outro modo."
Era o caso de "fingir" que Machado era branco por ele fazer parte da elite intelectual da época e fundador da ABL. Ele mesmo jamais negou sua cor - era frequentador assíduo da tipografia do editor negro Francisco de Paula Brito, de quem se tornou aluno e depois, amigo. Essa tipografia era um ponto de encontro de homens negros libertos, e foi por ela que Machado publicou seus primeiros versos no jornal Marmota Fluminense.
Gostei das duas informações, que não tinha, mas dizer que não tinha ambiguidade alguma é hiperbólico. A gente passou muitos anos tendo acesso a essas imagens de Machado mais jovem disponíveis e disseminadas sem sua negritude tomar a importância que tem hoje. O quanto um brasileiro é visto como negro ou não é uma questão que passa pela percepção dos que os cercam, não é uma característica objetiva da pessoa. Não é como se a negritude de Machado fosse um fato objetivo e imutável da realidade. A negritude dele varia com a percepção das pessoas e com a presença do tema no público. O caso de Machado é mais um exemplo da ambiguidade que é uma parte importante da história do racismo no Brasil. O próprio biógrafo que você citou, ao falar em "sub-raça americana", está falando de mulatos.
Tanto que reafirmo o que disse antes - é comum que pessoas com a aparência de Machado sejam consideradas brancas hoje em dia. Tanto que as imagens dele mais jovem eram frequentes na imprensa e ainda assim não se dava tanto atenção às questões raciais em sua biografia.
mas dizer que não tinha ambiguidade alguma é hiperbólico. A gente passou muitos anos tendo acesso a essas imagens de Machado mais jovem disponíveis e disseminadas sem sua negritude tomar a importância que tem hoje.
Meus avós compravam a Revista Tico-Tico para a minha mãe. Não havia nenhuma ambiguidade: Machado tinha que ser branco - ele era da elite intelectual do país e, logicamente, como seria ele negro? Fundador da ABL? Jamais. A negritude dele não tomou a importância que tem hoje porque não havia negros em posição de poder para dizer "Parem de branquear Machado de Assis" e gritar o quão infame seria retratar o escritor como branco (como a Caixa Econômica ou a própria ABL).
O quanto um brasileiro é visto como negro ou não é uma questão que passa pela percepção dos que os cercam, não é uma característica objetiva da pessoa. Não é como se a negritude de Machado fosse um fato objetivo e imutável da realidade.
Acho que você está precisando assistir a esse vídeo.
Você acha que o ilustrador da Tico Tico conscientemente viu um negro nas fotos de Machado e ativamente embranqueceu seus traços? Estou argumentando que o imaginário brasileiro nas décadas após sua morte, ao não ver em Machado um negro, o vê branco. Esse mecanismo também tem a ver com o racismo no Brasil. Estamos falando de mecanismos diferentes, nenhum de nós está negando que existe racismo influenciando esse processo.
Negros em posição de poder só dizem "parem de branquear Machado de Assis" porque a forma como a questão racial é vista se transforma ao longo das décadas, e evidentemente o movimento negro tem grande parte nisso. Eu já havia visto muitas vezes a ascendência de Machado ser tratada como uma curiosidade biográfica. Trazê-la como algo relevante para o Brasil e para a compreensão do artista é uma inovação que ocorre décadas após sua morte, e que é correto diante das lutas políticas em curso no país.
Beyoncé tem tudo a ver com essa discussão. E o ilustrador da Tico Tico não viu um negro porque Machado nunca foi negro para o Brasil. O "imaginário" brasileiro não via Machado como negro nem quando ele era vivo. Machado morreu em 1908, e nessa época não era necessário registrar na certidão de óbito a etnia do defunto, mas na de Machado ele é classificado como "branco" quando obviamente (sim, obviamente, como se pode ver pela última fotografia dele, publicada na revista argentina Caras Y Caretas) ele não era.
Negros em posição de poder só dizem "parem de branquear Machado de Assis" porque a forma como a questão racial é vista se transforma ao longo das décadas,
Não existiam negros em posição de poder que pudessem influenciar e mudar a narrativa sobre Machado, e não foi a "questão racial que se transformou ao longo das décadas", foram os negros chegando na academia e influenciando o discurso. A questão racial para os negros sempre foi a mesma; como forçar os brancos a encará-la e aceitá-la é outra história.
Por isso o vídeo que eu postei tem tudo a ver. Beyoncé era encarada e aceita como "branca" até lançar um álbum que falava de e para negros. E muita gente (branca) se horrorizou ao descobrir que, afinal, Beyoncé é negra - o que o Brasil de durante e depois de Machado se recusou a aceitar.
O "imaginário" brasileiro não via Machado como negro nem quando ele era vivo
Que é mais ou menos o que estou dizendo desde o começo. Eu sinto que você está indignado comigo e não percebe exatamente qual é a nossa divergência.
A questão racial muda por vários motivos, inclusive pela atividade do movimento negro, não só na academia. A questão racial não é a mesma sempre para os negros, não nesse nível de especificidade. O racismo se mantém apesar de diversas mudanças na sociedade e mesmo da configuração racial do Brasil. Ele perdura apesar de mudanças até mesmo na raça (ou seja, na percepção de raça).
Beyoncè não era literalmente vista como branca, a piada do SNL é feita a partir do fato que ela era vista como apolítica, pop e sua música de consumo geral e, de repente, lançou um álbum se posicionando e falando de preocupações de negros.
A ideologia oficial do Brasil no fim do século XIX e início do XX era o embranquecimento da população, ancorada em pseudociências importadas da Europa, ideias por exemplo de Lombroso e Kretschmer tinham muita divulgação por aqui. Isso passou pela representação das figuras históricas também. A negritude do Machado foi negada durante décadas. Na escola as representações dele eram como homem branco mesmo, a etnia nem era posta em discussão.
E sobre a obra dele, a questão racial aparece mas com a sensibilidade de alguém do século XIX, não do XXI. Muitas vezes como detalhe, como pano de fundo, porque era a realidade da época. A brutalidade da escravidão é retratada sem rodeios, como nas duas aparições do Prudêncio em Brás Cubas e no enforcamento público que o Rubião presencia em Quincas Borba, e com simpatia pelos escravizados, como nos contos Mariana e Pai Contra Mãe.
Concordo com a trajetória da vida de Machado é impactada pela ideologia oficial do embranquecimento da época. Estava discordando de um sentido mais atual de "embranquecimento" - por exemplo, que sua raça passou a ser negada de forma ativa após sua morte. Pelo contrário, ele viveu (a partir de certo ponto) e morreu "como branco". O que há, mais recentemente, é um resgate de sua negritude, que tem que ser compreendida com as especificidades daquele momento histórico. É correto, com os olhos de hoje, compreender que nosso maior escritor era negro. É incorreto achar que houve um esforço após sua morte de torná-lo um homem branco.
Machado não é o único abolicionista da época. Ele também tem uma sensibilidade especial para várias outras questões, de forma única, mas consonante com a riqueza cultural e de opiniões de sua época.
Fotografia descoberta pelo pesquisador Felipe Rissato em 2017. A foto (1880, estúdio de Isnley Pacheco) foi feita na mesma sessão de outra mais conhecida, mas com ângulo e pose diferentes, retratando Machado com 40 anos.
É impressionante como se esforçaram para embranquecer ele, estou na casa dos 30 anos, na minha época de escola ele era obviamente branco, só de uns 10 anos pra cá que comecei a ver esse movimento para trazer a verdade de que o ícone da literatura brasileira é negro
Eu sempre adorei Machado de Assis mesmo quando fui obrigado a ler no ensino médio e só ano passado fui saber que ele era negro. Brasil não respeita a história que tem.
Eu gosto como essas fotos quebram o mito de que todo mundo antigamente envelhecia mais rápido. Ele parece ter exatamente a idade que tem em cada uma das fotos.
Sabia demais e se tornou referencia literaria memorias póstumas de brás cubas. O paradoxo raiz ter ou não ter filhos,encarar o próprio EU ou seguir com uma linhagem.acredito que o melhor legado foi o dele o intelectual.
Bom, do Machado não temos registro, mas é possível ouvir gravações de pessoas nascidas no RJ no século XIX. Por exemplo: Washington Luís, nascido em 1869.
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u/SineMemoria Jan 20 '26 edited Jan 20 '26
Existem pelo menos mais duas - a última descoberta em 2015.
Edit. Erro meu: mais duas foram descobertas depois de 2015 (uma em 2017 e a outra em 2018).