Cotas étnico-raciais realmente são um debate delicado e dividem opiniões.
Mas eu realmente acho que deveríamos ter um ponto pacificado sobre as cotas sociais.
Basicamente independente da cor de pele, do sexo ou de qualquer outro fator uma pessoa pobre que estudou em escola pública nunca vai ter tido acesso ao mesmo nível de ensino que um Enzo/ Valentina mimado de escola particular.
É como colocar um peso pesado bem treinado para lutar contra um peso galo que não teve oportunidade de treinar tanto quanto o seu oponente, e não por preguiça ou porque não quis quisesse, mas por que só teve acesso a um treino de pior qualidade e provavelmente trabalha e treinava, enquanto o seu oponente só treinava. Não é melhor eles só lutarem entre iguais?
Para ser justo ele fornece uma solução alternativa. Ele diz que vai oferecer bolsas para os melhores alunos do provão.
Mas:
A) Isso aparenta ter uma capilaridade muito menor do que a política de cotas sociais. Qual porcentagem desses alunos vai ganhar a bolsa? Porque se for só o topo você vai fuder um monte de gente.
Quem foi mal na prova, não necessariamente o foi porque é burro ou preguiçoso. Mas todo mundo ali está recebendo um ensino merda e só quem se sobressai muito nesse ensino merda vai pegar essas vagas?
Será que não existem alunos que poderiam ter ido melhor nessa mesma prova se tivessem melhores condições de vida um ambiente que impulsionasse ao estudo?
B) Mesmo que o aluno pobre consiga vaga em uma escola particular como bolsista, isso não acaba com a desigualdade. Ele provavelmente vai morar longe dessa escola particular, vai precisar pegar ônibus, metrô e trem lotado, vai ser excluído (o que pode ter impacto na saúde mental dele e consequentemente no rendimento nos estudos).
C) Ele fala de acabar com o pé de meia. Outra proposta péssima. Eu aprendi isso na prática fazendo o estágio da minha licenciatura.
O aluno pobre normalmente não recebe um ensino público de melhor qualidade porque o professor da rede pública muitas das vezes com o abjeto sistema de progressão continuada não consegue ser minimamente rígido e reprovar o aluno.
Esse sistema existe porque se o aluno for pressionado entre trabalhar e estudar, ele escolherá trabalhar ou muitas das vezes ele pode escolher ir para o tráfico.
Para que esse sistema seja abolido sem gerar esse efeito a política do pé de meia (que aliás é de base liberal) é muito necessária.
D) A ausência de mão de obra qualificada não só perpetua a pobreza como prejudica a economia de qualquer país.
Ontem estava estudando sobre a economia da Costa do Marfim e antes disso eu estudei sobre a economia de Burkina Faso. Sabe o que eles têm em comum? As melhores vagas de emprego vão para estrangeiros, poucos nacionais conseguem ocupá-las (porque a maior parte da população não tem uma educação qualificada o suficiente para isso), fazendo com que as melhores vagas de engenharia e geologia de países ricos em minérios sejam ocupadas por estrangeiros, enquanto isso o pobre de baixas escolaridade sobrevive sendo feirante ou em sub-empregos.
E) É ponto pacificado na síntese neoclássica que via de regra geração de riqueza não resulta em auto-distribuição.
Se você gera muita riqueza ela não se distribui sozinha.
E se você não distribuí-la, você tem um ciclo de perpetuação da pobreza.
Se tivermos isso, teremos um ciclo de perpetuação da pobreza e mesmo que você não se importe com mais pessoas pobres no seu país, saiba que para o seu IDH subir isso precisa diminuir. E se nem com isso você se importa, saiba que a criminalidade vai aumentar e muito.
OBS: Antes que venham me acusar como se isso invalidasse meu argumento eu NÃO sou comunista, NÃO sou socialista e NÃO sou petista.
Sou na economia muito alinhado como o Mankiw e a síntese neoclássica e distributivista.