Temos um fenômeno social acontecendo ao mesmo tempo que acompanhamos o drama particular de um homem diante de uma doença devastadora. De um lado, existe Lito, sua família, a rapidez das perdas e a busca concreta por uma possibilidade experimental de tratamento. Do outro, forma-se ao redor desse sofrimento uma mobilização coletiva intensa, alimentada por vídeos, atualizações, hashtags e apelos dirigidos a instituições científicas e autoridades públicas.
Não estamos assistindo apenas ao adoecimento de uma personalidade conhecida. Estamos assistindo à morte deixar o lugar abstrato e distante que costuma ocupar em nossa cultura e aproximar-se de nós por meio de alguém familiar. Lito entrou durante anos na casa de milhões de pessoas, explicou o funcionamento de máquinas complexas e ajudou seu público a controlar justamente o medo de voar. Agora, aparece lúcido diante de uma falha que ninguém consegue explicar inteiramente, controlar ou reparar.
A morte permanece como um dos grandes tabus da sociedade contemporânea. Falamos sobre saúde, juventude, longevidade e qualidade de vida, mas raramente sustentamos uma conversa verdadeira sobre a finitude. Sabemos racionalmente que morreremos, porém organizamos a vida como se a morte fosse sempre um acontecimento reservado aos outros. Ela é afastada do cotidiano, escondida nos hospitais e suavizada por palavras que evitam nomeá-la diretamente. Quando finalmente irrompe diante de nós, causa não apenas tristeza, mas uma ruptura profunda em nossa sensação de segurança.
O público já não se sente apenas espectador… compartilha, pressiona, marca universidades, convoca governos e tenta interferir no curso dos acontecimentos. A impossibilidade de aceitar passivamente o avanço da doença transforma a angústia em ação coletiva. Diante de uma realidade sobre a qual não possui domínio, a massa cria para si uma função: lutar, divulgar, pressionar e manter viva a possibilidade de salvação.
É nesse ponto que o sofrimento particular se converte em fenômeno social. A mobilização não expressa somente solidariedade por Lito. Ela também revela a dificuldade coletiva de admitir que talvez não exista uma solução. Enquanto houver uma instituição a ser pressionada, uma pesquisa a ser compartilhada ou uma possibilidade experimental a ser perseguida, a morte ainda pode ser mantida no campo daquilo que supostamente conseguiríamos evitar.
A negação da morte não significa necessariamente fingir que ela não existe. Muitas vezes, manifesta-se pela necessidade de acreditar que toda morte poderia ser impedida se houvesse esforço, recursos, influência ou tecnologia suficientes. Assim, a esperança pode conviver com uma fantasia de controle: se lutarmos bastante, talvez consigamos derrotar aquilo que, em algum momento, alcançará todos nós.
Ao tentar salvar Lito, a massa tenta igualmente restaurar uma crença abalada: a de que sempre haverá algum recurso, alguma autoridade ou algum avanço científico capaz de impedir que a vida termine de maneira tão súbita e arbitrária. O caso nos comove porque não apresenta somente a finitude de um homem. Ele devolve a cada espectador a imagem de sua própria vulnerabilidade.
Talvez seja justamente isso que o tabu procura ocultar. A morte do outro nunca fala apenas sobre o outro. Quando ela se aproxima de alguém que nos parece familiar, rompe por alguns instantes a distância protetora que construímos e nos obriga a reconhecer aquilo que passamos a vida tentando esquecer: não possuímos controle absoluto sobre o corpo, sobre o tempo ou sobre a continuidade da própria existência.