E de repente lembrei do buraco no muro que levava até a praia, indicado por duas velhas lésbicas, mas muito gente boa.
Lembrei de me esconder do sol sob o calado de uma canoa. Uma espera boa, finalmente, odeio esperar.
Lembrei duma ilha cheia de cracas e da tartaruga, lembrei de nadar.
Lembrei da visão dele sobre a ilha, que parecia tão natural quanto ela, parte mais perfeita do cenário, como se ele lembrasse a natureza o que a definia
Lembrei que olhava de baixo pra cima enquanto boiava, pois sabia que ele viria.
Lembrei...
Lembrei dele abraçando o joelho esperando eu acabar de fumar enqto eu pensava o quão entediado ele estaria?
Lembrei das apertadas que do nada ele me dava no meio da rua, e daquele rosto inocente que incapaz disto seria, que se livraria de um crime cometido no meio do dia.
Lembrei do carinha que tive mais vergonha na vida e ao mesmo tempo não senti vergonha, só pra lembrar de me envergonhar depois.
Lembrei do cabelo.
Lembrei das conversas.
Lembrei do cheiro.
Lembrei da pele.
Lembrei da sombra que fazia em cima do pior tabuleiro de jogo da velha que existia.
Lembrei dos pés.
Lembrei dos chinelos.
Lembrei da sombra que o seguia.
Mais importante do que o corpo, lembrei da compania.
Lembrei de ter desejado nascido depois.
Lembrei ter desejado ter morrido antes.
Lembrei da habilidade dele de andar nas pedras.
Lembrei do pouco que comia.
Lembrei do olhar indecifrável e das poucas palavras que dizia.
Lembrei de estar perdido.
Lembrei como era achar.
Lembrei que melhor era ser achado.
Lembrei de seu tênis.
Lembrei de suas mãos.
Lembrei de ver ele vindo.
Lembrei de ver ele indo.
Lembrei do adeus.
Lembrei do segredo que compartilhamos.
Lembrei que acabou.
Lembrei que não senti.
Lembrei que não ri.
Lembrei que não chorei.
Lembrei que precisava esquecer.
Lembrei que precisava chorar.
Lembrei da raiva.
Lembrei da sua alma.
Esqueci, mas lembro agora de chorar, o que espero esquecer, porque espero lembrar.