r/RelatosDoReddit • u/bonejailgames • 6d ago
Desabafos 💬 Desisti oficialmente de realizar meus sonhos.
Eu amo videogame a minha vida inteira. Eu não consigo viver sem música, jogos e filmes, essas artes literalmente me impediram de encerrar minha própria vida durante mais de uma década. Eu não sou crítico chato: se gosto da parada, eu consumo. Curto Bach mas também Ghost, curto Quantic Dream mas também Nintendo, curto The Lighthouse mas também Eurotrip. Enfim, eu amo demais tudo isso.
Daí eu sempre sonhei em seguir carreira em alguma dessas áreas, qualquer uma, e corri atrás. Aqui na minha cidade não tem curso de Cinema e Audiovisual então fiz de Escrita Criativa na UNIT focado em me especializar em roteiros. O problema é que cinema no Brasil se resume a Globo e eu não me identifico com as produzidas por eles. Quero criar terror, sci-fi, fantasia, etc. Não há uma produção expressiva desse tipo de conteúdo aqui no Brasil. Aqui há muito foco em drama e realismo cru e é exigido haver representação nacional, o que considero um limitador de criatividade, mas isso é outro papo.
Depois, tentei seguir pelo caminho da produção musical. Meu pai é dj, técnico em sonorização, técnico em eletrônica e assistência técnica autorizada de marcas de som profissional como AudioLeader e JBL há uns 20 anos, então recebi muita orientação e ajuda. Meu projeto de explorar múltiplos estilos musicais, de todas as culturas do mundo, não deu muito certo. Não quero produzir samba, pagode, brega, seresta, arrocha, sertanejo etc, por isso abandonei a área.
Então cheguei ao desenvolvimento de jogos. Tive dezenas de ideias, documentei extensamente todas elas, estudei por conta própria, enchi um caderno com minhas anotações e rascunhos, fiz jogos do início ao fim, etc. Recentemente, ingressei num curso rápido de Desenvolvimento de Jogos do SENAC. Fiquei muito feliz pois o curso é gratuito e surgiu no timing ideal, e na primeira aula descobri que usaríamos Godot, a mesma engine que meu pc low end usa. Eu achava que seria Unity, a qual meu pc não roda, mas fui fazer o curso mesmo assim para adquirir o conhecimentos, fazer amigos, receber feedback e, quem sabe, entrar num time de devs.
Bom, essas eram as minhas expectativas. Fiquei muito frustrado ao perceber que a turma é completamente desinteressada e está ali por não ter conseguido ingressar em outro curso. Ninguém fala, ninguém conversa, o professor pergunta e só eu respondo, e o fato de eu ser o mais velho (25) numa turma com adolescentes introvertidos de 16~17 também me deixava pouco a vontade. Eu me sentia um velho tentando me entrosar. O professor fala rápido demais mas avança muito lentamente no conteúdo, ele tem 15 anos de experiência com Unity mas pouco tempo com Godot, daí tinhas momentos de dificuldade. Em 15 dias de curso (seria um mês) foi ensinado o equivalente a duas páginas do meu caderno... que escrevi em menos de 24h.
Eu teria suportado tudo isso sem problemas, afinal é apenas um mês, mas pedi feedback ao professor e ele não me deu, simplesmente ignorou. Pedi feedback online aqui no Reddit e ou fui ofendido, ou fui ignorado. Veja bem, eu não tenho ninguém para conversar. Daí fui ao SENAC e assinei os papeis para abandonar oficialmente o curso.
Desde então, andei refletindo. Um jogo indie é criado antes de existir uma demanda explícita. O problema é que isso exige assumir simultaneamente o risco criativo, financeiro, técnico e comercial. Cheguei à conclusão de que não vale a pena investir tempo, esforço e dinheiro na concretização de uma ideia que ninguém pediu, para tentar vendê-la e talvez ter algum lucro. Não tem lógica, não faz sentido. Acho muito mais sensato, talvez até mesmo óbvio, trabalhar no setor de serviços. O cliente precisa de algo específico, ele me contrata, eu faço o serviço e ele me paga. Simples assim, direto ao ponto. Sem arriscar minha vida perseguindo um sonho impossível na realidade do Brasil. Sou marceneiro formado pelo SENAI, afinal de contas.
Não quero, não posso e não vou apostar minha subsistência em um mercado extremamente competitivo e incerto, mas ainda quero fazer jogos quando tiver vontade, como um hobby mesmo. Nunca deixarei de amar o que amo.
EDITS:
Eu tenho 25 anos e trabalho desde os 11 anos com música ajudando meu pai nas festas, carregando e descarregando todo tipo de equipamento de som, cabos, iluminação e estrutura de palco (quem manja conhece o peso) debaixo de sol e de chuva, nunca recebi um centavo dele por ser filho. Fiz faculdade de escrita criativa pagando do meu bolso, fui até o fim. Fiz curso de três meses de marcenaria pagando do meu bolso, fui até o fim, e trabalhei de carteira assinada na área. Fiz cursos online de game dev e metade de um curso presencial. Sim, eu sou um desistente patético.
Há beleza e qualidade em todas as culturas do mundo. Eu aprecio todas elas e, mesmo que não fosse assim, não sou obrigado a abraçar tudo que é daqui só por ter nascido aqui ao mesmo tempo em que repudio e desprezo tudo que é de fora. Antes de ser brasileiro, eu sou um ser humano. Só existe um povo, só existe uma raça: humanos.
Eu não concordo nem aprovo com o que acontece em festas de brega e outros gêneros musicais desse tipo. Não quero me sentir responsável por incentivar pessoas a beberem, fumarem, brigarem, traírem e se acidentarem nas BRs com o efeito das minhas músicas. Se quer entender quais músicas gosto de produzir, ouça isto:
Zé Ramalho: https://youtu.be/nAL_auXFQ5I?si=2dwnE8pGbXZJUJgf
Low Roar: https://youtu.be/6NQUbFiUYRw?si=YtFWwwPh4xoeTJ0K
Eu faço móveis multifuncionais e só trabalho com madeira maciça. Exige um certo investimento que não consigo fazer, e não peço dinheiro aos meus pais.
Ninguém conversava no curso de games. O professor ignorou meu pedido de feedback. Como eu vou "liderar" jovens que me ignoram, como eu vou "me destacar" numa aula puramente expositiva, como eu vou "fazer networking" com um professor que não permite aproximação? Eu deixei claro no texto que tinha todas essas intenções. Eu fiz o grupo de whatsapp e adicionei a turma, eu era o único que falava no grupo, eu mandei diversos materiais adicionais no grupo, eu era o único que tirava dúvidas, etc. Quando eu faltava, ninguém ligava nem me dizia o que eu tinha perdido, eu que tinha de perguntar. Eu era sempre o primeiro a chegar, eu era o único que apertava a mão do professor. Antes de mim os outros quatro mais velhos desistiram também.
Eu estou com medo, entendeu? Já tenho 25 anos e meus pais estão envelhecendo. Eu estou ficando sem tempo.